Livro: A Chave do Labirinto por Ricardo Sousa (Fonseca)

a chave do labirinto

Crítica por: Pedro Pinto

Existem livros que desabrocham como uma flor, passo a passo, lentos – por vezes –pejados de pequenos fragmentos de prazer, emotividade e coragem em admitir os próprios erros – este é um desses livros.

A vida já é demasiado complexa, o turbilhão de sentimentos, a capacidade de os exteriorizar, a força de nos darmos ao próximo – seja de que forma – é, por si só, uma valência; é, decididamente, uma forma de tocar o próximo com uma palavra, um gesto ou um olhar que, cliché à parte, diz mais do que se da boca brotassem palavras.

Cuidar do próximo, ser enfermeiro, estudar, “queimar as pestanas”, é ser mais humano. Neste livro somos impactados com amores distantes, ora próximos, saudades viscerais e ao mesmo tempo com uma plenitude e calmaria como se estivéssemos à beira do lago mais calmo do mundo – será o verdadeiro gostar do outro um sentir em plenitude?

O que se sente é uma calma, um respeito pelo outro, muitas vezes em detrimento do próprio, o ajudar na evolução do próximo – sente-se uma atitude altruísta e enternecedora.

Nem tudo é singelo, por vezes podemos ler (ter) dias tempestuosos; creio que como qualquer ser humano, também o autor teve os seus e bujardou-os no papel: intensos.

Aqui também o amor por nós próprios é marcante, um coming out pode ser devastador, no entanto as pessoas não se definem por uma variável, mas sim pelo todo – é altura de cada um ser feliz como lhe apraz; isto claro, sem prejudicar o próximo, seja de que forma for.

Nem sempre a família consegue entender as opções, a forma de estar de cada um de nós; muitas vezes age de forma atroz; muitas vezes ganhamos outras famílias, não de sangue, “manos” que não o sendo, são aqueles que nos dão toda a força, um porto seguro, dando-nos a mão e fazendo-nos prosseguir. As descrições familiares, quase pueris, dão-nos a sensação de proximidade, quase como se estivéssemos ali, a partilhar o momento.

Vemos o quão podem ser complicadas as relações, e ao mesmo tempo a simplicidade, as proporções que podem tomar um abraço, um terno toque; uma forma de contagiar, de preencher plenamente o outro. Independentemente do tempo que tudo possa durar, dos silêncios pós-relacionais ou até mesmo do desânimo que se possa sentir, aquando de um momento mais fechado em nós mesmos. É assim que cada página é passível de ser sentida.

Um diário, um livro, um caderno, tudo isto e muito mais, que não é, mas sendo-o; tantas vezes as incongruências da vida nos levam a ser melhores, a ir mais além, a termos consciência de nós mesmos, do próximo e assim, finalmente deste modo, a sermos e a fazermos alguém feliz.

Inspiramos, expiramos e ficamos ali, acolá, onde quer que seja, a contemplar pausadamente a evolução, as dúvidas, a necessidade de nos sentirmos gostados, amados, apaixonados e queridos pela família, pelos amigos – embora alguns desaparecidos – num carrossel humano de transformação; uma metamorfose até atingir o estado “borboleta” – para atingir o “belo” temos, por vezes, de enfrentar caminhos sinuosos.

Este livro vale a pena, por mais sinuoso que seja o seu caminho, a sua transformação até chegar ao que é hoje – independentemente de tudo – tenha-o em conta – não irá arrepender-se.

O Livro

Autor: Ricardo Sousa (Fonseca)
Editora: Papiro Editora
Data de Lançamento: Setembro de 2007
ISBN: 9789896361068

Sinopse

De uma cidade belíssima na raia do Alto Douro, às margens de uma ribeira onde já não há milagres!…

Rasgou o caminho a pulso por estradas de trigo loiro, em que a distância se mede pelo tamanho da memória e planícies de betão, desenhadas na fronteira do corpo de cada homem.

… Do medo ergueu a bandeira para conquistar o futuro!

Viagens que, muitas vezes, fez através de si mesmo, naquela busca incessante de quem tenta ser feliz e não sabe que é preciso amassar o amanhã com sal que há nas lágrimas que vestem a solidão.

Percorreu as ilusões tantas vezes inventadas, até que se apercebeu de que eram apenas miragens.

Descobriu à sua custa as arestas da ternura. Magoou-se. Sou, depois, que o amor e a alegria são, quase sempre, a difícil conjugação de um jogo que não tem regras.

Por: Pedro Pinto

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